Presidente denuncia e assume práticas de corrupção no Futebol Angolano
O Presidente do Clube Recreativo da Caála do Huambo, Horácio Mosquito, admitiu ontem, em conferência de imprensa convocada pelo próprio, a prática de actos de corrupção. Segundo o mesmo, os actos referem-se ao pagamento de árbitros em jogos no estrangeiro, mas o mesmo não surtiu o...

Presidente denuncia e assume práticas de corrupção no Futebol Angolano

Corrupção no Futebol Angolano · Girabola · Federação Angolana de Futebol

O Presidente do Clube Recreativo da Caála do Huambo, Horácio Mosquito, admitiu ontem, em conferência de imprensa convocada pelo próprio, a prática de actos de corrupção. Segundo o mesmo, os actos referem-se ao pagamento de árbitros em jogos no estrangeiro, mas o mesmo não surtiu o efeito desejado, uma vez que os seus adversários teriam alegadamente pago mais aos árbitros.

A revelação foi feita durante a conferência de imprensa onde o próprio anunciou que irá entregar à Procuradoria Geral da República (PGR) uma denúncia sobre supostos actos de corrupção generalizada no futebol nacional.

Passamos a transcrever o esclarecedor artigo do Jornal dos Desportos assinado por Paulo Calulo sobre o tema:

Horácio Mosquito convocou ontem à tarde os jornalistas, num dos anfiteatros do Hotel Epic Sana, em Luanda, para, em conferência de imprensa, denunciar a existência de corrupção no Girabola. O presidente do Recreativo da Caála confessou, sem evasivas, ter participado, no passado, deste esquema de corrupção de arbitragem.

"Eu já paguei árbitros internacionais lá fora e alguns árbitros aposentados, mas hoje não o faço, aliás, há muitos anos que deixei de o fazer, porque rapidamente percebi como isto funciona, a partir do momento em que recebi uma denuncia de um árbitro internacional", esclareceu o responsável máximo do clube do Huambo.

O dirigente revelou que escreveu à FAF exigindo um inquérito, com cópias para o Presidente da República, Ministro da Casa Civil e Procuradoria Geral da República para colocarem um ponto final na triste situação que enferma o futebol nacional.O líder dos caalenses fez ainda questão de justificar que só agora resolveu denunciar tais acções, por não concordar que a modalidade continue a ser decidido em cenários injustos e escuros, em benefícios de pessoas que não estão preocupados minimamente com a questão da verdade desportiva.

"Houve campeonatos comprados e isso não começou hoje. E quando existe indicio de crimes, tem de haver formas de investigar. O que estou a fazer hoje é um grito de revolta, porque chegou o momento de dizer basta. A corrupção não é difícil de provar, porque temos provas de alguns clubes que dão prendas, ofertas, na tentativa de conseguirem alguns benefícios", assegurou Horácio Mosquito.

O presidente do CRC vai mais longe e afirma ter provas sustentadas que serão apresentadas à Procuradoria Geral da República, em que constam os nomes dos clubes que alimentam este circulo de corrupção no futebol nacional. Cita, por exemplo, o facto do seu antigo treinador, Arsénio Túbia, ter recebido um telefonema do Conselho Técnico da FAF, a ouvir comentários de que estaria em apuros no Caála, porque "os gajos não pagam (aos árbitros)".

"Os actos de corrupção são notórios e de natureza criminal. Não podemos escamotear esta verdade. Quando cheguei ao futebol, já tinha sido alertado sobre a existência de jogos debaixo da mesa. Será o principio do fim de algumas coisas no futebol. A tomada de decisão pode durar anos, mas o bater na mesa pode acontecer em breve", alertou.

Ainda sobre o tema, apresentamos o artigo assinado por António de Brito no Jornal de Angola, que adiciona detalhes sobre o assunto:

O presidente do Clube Recreativo da Caála, da província do Huambo, Horácio Mosquito, disse ontem em conferência de imprensa, em Luanda, que apresentou uma queixa-crime à Procuradoria Geral da República (PGR), contra o envolvimento de árbitros, dirigentes e treinadores em casos de corrupção no futebol angolano.

Horácio Mosquito sublinhou que o “negócio” envolve o montante de 50 mil dólares, viaturas de luxos e casas: “Estou a falar com conhecimento de causa. Tenho os nomes das pessoas implicadas. Essas pessoas, em função das minhas denúncias, serão chamadas pela Procuradoria Geral da República. Tenho como provar. Há documentos e registos que indiciam as pessoas envolvidas nos casos de corrupção. Os corruptos e corruptores têm de ser investigados e pagar pelos crimes que cometeram. Não podem ficar impunes”.

O dirigente acrescentou que antes da realização da conferência de imprensa endereçou cartas ao Presidente da República, ao Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, ao Ministro da Juventude e Desportos Federação Angolana de Futebol.

Horário Mosquito foi mais longe, ao afirmar que nos últimos anos quatro dos títulos do Girabola foram comprados. “Alguns clubes deram ofertas e recompensas aos árbitros. Os actos de corrupção são notórios e de reconhecimento oficioso. A corrupção no futebol angolano é acentuada. Sei que muita gente não vai gostar da minha frontalidade. Alguém tinha de fazer algo para dar um basta neste fenómeno. É uma situação que vai levar algum tempo para ser banida. Mas, vamos continuar a bater na questão, para acabarmos com as irregularidades no desporto angolano, no caso particular o futebol”.

Admitiu também que no passado chegou a entrar no negócio da corrupção, quando em 2011 a sua formação esteve empenhada na Taça da Confederação Africana de Futebol (CAF). “Paguei árbitros internacionais fora do país. Já paguei árbitros aposentados. Mas já fui prejudicado, porque os outros clubes pagaram mais do que o meu”, desabafou.
Questionado sobre as pessoas e clubes envolvidos no negócio, o presidente do Recreativo da Caála preferiu não avançar nomes, para não atrapalhar as investigações: “Não posso adiantar nomes. Mas há árbitros internacionais, bem como dirigentes.
Recordou que quando João Arsénio “Túbia” foi contratado para treinar o Recreativo da Caála, houve um dirigente do Conselho Técnico da FAF que telefonou a perguntar se iria dirigir um clube cujo presidente não paga. “Estamos diante de casos de corrupção”.

Iremos disponibilizar na íntegra, assim que possível, o registo áudio desta intervenção.